TEX> Sendo o vice-presidente da ALATS (Associação Latino Americana de Teste de Software), quais são as suas percepções em relação à aceitação e penetração da CBTS (Certificação Brasileira de Testes de Software) no cenário brasileiro?
Ricardo Cristalli> A ALATS criou a Certificação Brasileira de Teste de Software (CBTS) para atender a uma exigência do mercado brasileiro que estava demandando um processo de certificação e qualificação de profissionais em teste de software. A prova disso é que a CBTS, vem sendo muito bem recebida. Além da CBTS já temos hoje mais duas certificações a CSTE e a ISTQB.
A prova CBTS é difícil, o índice de aprovação de aproximadamente 40%, mostra isso. Acredito que deva ser assim mesmo, afinal trata-se de uma certificação, e as empresas podem saber que ao contratar um profissional CBTS estão levando um profissional qualificado.
Apresento alguns números que demonstram a boa aceitação da CBTS no mercado, é como diz um antigo ditado: "Contra fatos não há argumentos". Em 2006 a CBTS foi realizada em 8 capitais brasileiras com participação de 113 candidatos. Na primeira prova de 2007, a abrangência passou para 10 capitais e 121 profissionais. Para a próxima prova estaremos em 11 capitais e o número de inscritos até o momento já ultrapassa 200 candidatos. Acredito que este crescimento exponencial, deve-se a confiança que a comunidade de teste tem demonstrado nos trabalhos realizados por toda a equipe da ALATS.
TEX> O livro "Base de Conhecimento em Teste de Software" em que você é co-autor, tornou-se uma referência na área de testes de software no Brasil em virtude de ser bastante completo e ter uma abordagem didática. Este livro também é a principal referência para o exame de certificação da CBTS (Certificação Brasileira de Testes de Software). Como a evolução desse livro afeta o exame de certificação da CBTS e o amadurecimento da CBTS afeta conteúdo do livro?
Ricardo Cristalli> Isso é realmente é uma via de mão dupla, pois entendo que a área de Teste de Software está em plena evolução. Pensando nisso a ALATS, contando com o seu Comitê de Inovação, criou o conceito de "Referência Complementar - CBTS". Sabemos que a atividade literária não é uma atividade tão dinâmica e isso poderia impactar a evolução dos assuntos. Sendo assim, a RC - CBTS, que é disponibilizada gratuitamente para download no portal da ALATS, tem por objetivo disponibilizar os assuntos inovadores que um profissional certificado necessite saber e que por ventura não constem no livro. E a tendência, é que amadurecimento esteja refletido nas próximas edições do livro.
TEX> Percebemos nos últimos tempos a sua participação freqüente e ativa em eventos relacionados à área de teste e qualidade de software. Seja empenhado em consolidar a ALATS/CBTS ou em divulgar o iTeste (Instituto de Teste de Software) a sua presença já é uma constante. Como é essa vida de caixeiro viajante divulgando as melhores práticas na área de testes e qualidade de software? Quais foram as principais lições aprendidas por meio desse contato direto com a comunidade de testes/qualidade brasileira?
Ricardo Cristalli>Essa atividade intensa é ótima, me dá oportunidade de acompanhar de perto o andamento e a evolução da nossa área nas diferentes realidades do mercado brasileiro. Essa troca de conhecimento é maravilhosa, posso dizer que em cada lugar / empresa aprendo alguma coisa nova.
Estamos em pleno desenvolvimento e isso não se restringe apenas aos grandes centros, tive a grata satisfação de perceber inúmeras iniciativas de vanguarda em empresas que não fazem parte das famosas "big fives" mais estão levando a sério esta questão de qualidade.
O único ponto que não é muito fácil de lidar é a distância da família, que sofre um pouco com essa movimentação. E é devido a esse fato que o acompanhamento que ofereço aos alunos por e-mail, para responder as solicitações e questionamentos, acaba sobrando para depois que as crianças dormem... Mas essas atividades muito me gratificam, pois percebo que com isso, posso estar contribuindo com a disseminação e a equalização do conhecimento.
TEX> Um tema recorrente nas suas palestras/treinamentos é a disseminação do conceito de Fábrica de Testes. O que caracteriza uma Fábrica de Testes em relação a uma empresa que oferece outsourcing ou serviços convencionais de testes?
Ricardo Cristalli>Costumo dizer que a área de Teste vem evoluindo rápido e se tornando tão independente que pode até ser rentável. Tudo começa quando a empresa percebe que necessita melhorar os testes aplicados em seus produtos devido a problemas de entrega que geram prejuízos.
Num próximo momento, percebe que ao criar uma área independente atende as exigências dos modelos de melhoria de processo e de maturidade e pode continuar testando os seus produtos. Com a criação e profissionalização desta área, a empresa vê que pode até ganhar dinheiro com essa equipe e passa a oferecer serviços especializados para o mercado.
Esse serviço oferecido, realizado por uma equipe qualificada, processo metodológico aderente às boas práticas e ao conceito de projeto de teste (atividade temporária, planejada, executada e controlada, com objetivo de criar um produto ou serviço único) é chamado de Fábrica de Teste.
TEX> Outro tema muito comum nas suas palestras/treinamentos é a Automação de Testes. A Automação de Testes é uma atividade que exige um investimento massivo, seja na aquisição de ferramentas, treinamento, infra-estrutura entre outros aspectos. Qual é o retorno de investimento de um projeto de Automação de Testes? Vale realmente a pena automatizar os testes?
Ricardo Cristalli>Os artigos de Rex Black - The Cost of Software Quality e "Investing in Testing" apresentados no EuroSTAR2002 - nov/2002 apresentam um ROI de até 800% no investimento em teste. No primeiro trabalho ele apresenta 3 colunas: ausência de uma área de teste, área de teste sem utilização de automação e área de teste utilizando automação. O artigo está todo embasado no conceito do custo do defeito, conceito esse, que é apoiado por Myers, na famosa regra de 10 Myers, e por vários outros autores, que demonstram que quanto mais tarde se encontra o defeito maior é o custo da sua correção.
A automação, quando bem implementada, pode: reduzir o número de horas gastos executando testes manuais repetitivos, permitir a fiel reprodução do teste executado, reduzindo o erro por falha humana e aumentar a cobertura do teste. Isso é realmente vantajoso se você souber o que deve ser automatizado. Acredito sinceramente que a automação é um projeto muito mais amplo do que se imagina.
Naturalmente quando pensamos em automação de teste, vêm à nossa mente apenas a execução do teste, em uma das inúmeras ferramentas disponíveis. Porém o projeto de automação deve ser encarado realmente como um projeto dentro do Projeto de Teste. Nesta visão de projeto temos que: planejar, projetar, executar e analisar seus resultados (todas as fases de um projeto inclusive o teste). Com este enfoque podemos identificar diferentes possibilidades de automação durante o processo de teste: automação da gestão, automação da elaboração, automação na execução (nas diferentes fases, estágios ou níveis de teste: unitário, integração, sistema e aceitação), automação na preparação da massa de teste e automação no acompanhamento dos testes (gestão de defeito, acompanhamento do processo etc...)
Sendo assim, cada ferramenta tem seu objetivo o que realmente devemos é saber quando lançar mão de um processo manual ou utilizar uma ferramenta como apoio.
TEX> Existe um ditado muito comum na área de Automação de Testes que diz: "Um tolo com uma ferramenta continua sendo um tolo". Este ditado se refere às empresas que investem em ferramentas de automação de testes sem, ao menos, possuírem um processo de testes formal e consolidado. Normalmente projetos de automação de testes nestes cenários fracassam, afinal, uma ferramenta de testes não é um processo e é impossível automatizar o caos. Qual a sua opinião?
Ricardo Cristalli>Concordo plenamente, acredito piamente que o que você necessita é saber o que precisa. Só assim você terá meios de quantificar o seu retorno. Um baixo investimento em ferramentas / treinamentos pode não oferecer retorno, quando um alto investimento traria o retorno desejado, mais temos que tomar cuidado, já que a recíproca também é verdadeira. O melhor investimento é aquele empregado nas suas reais necessidades, ele pode ser muito baixo ou de milhões.
TEX> Discussões sobre Fábrica de Testes e Automação de Testes normalmente nos remetem a pensar em empresas com processos de testes estruturados e extremamente formais. Por outro lado, nos últimos tempos podemos notar uma forte discussão acerca de técnicas de testes menos formais com um grande enfoque na intuição e julgamento do testador. O Teste Exploratório é o maior expoente dessa abordagem de teste baseada na intuição e julgamento. Qual a sua opinião sobre a coexistência entre abordagens tradicionais de testes e abordagens baseadas na intuição e julgamento?
Ricardo Cristalli>Acho que a palavra chave é planejamento. Tudo deve começar com o escopo definido e acordado no inicio do projeto, a definição da estratégia de teste baseada nos riscos do negócio e o contrato firmando entre as partes, o famoso plano de teste.
De posse das informações do planejamento torna-se possível e necessário adaptar o processo ao projeto. Pois em determinados projetos não se justifica a utilização de processo formal. Em outros casos as abordagens mais tradicionais são não só cabíveis como também necessárias.
TEX> Como alguém formado em Medicina Veterinária se voltou para a área de tecnologia da informação e tornou-se uma referência na área de testes no Brasil? Compartilhe conosco um pouco da sua trajetória profissional.
Ricardo Cristalli>Tinha uma profissão (veterinário) e um hobby (informática) o que ocorreu na verdade foi a troca entre os dois... Já tive meus dias de "Indiana Jones", fazendo resgate de fauna no Alto de Jatapu, estudando fisiopatologia do veneno ofídico e outras "cositas", mas com o nascimento do meu filho, fiz uma escolha entre os meus animais e o meu "animalzinho" que acabara de nascer e que necessitava no momento muito de mim.....
Dentro da informática acabei me interessando por uma área relativamente nova e eu acabei me especializando e crescendo junto com ela.
TEX> Quais são os livros que você recomendaria para os profissionais que tem interesse de ingressar na área de testes de software?
Ricardo Cristalli> Sou suspeito para falar mais acredito que o Livro "Base de Conhecimento em Teste de Software" é um livro muito bom para quem tem interesse em conhecer a atividade de teste, pois ele se propõe a ser bem abrangente. Ele permite ao leitor adquirir uma visão geral da disciplina. Abaixo, apresento outras literaturas para contribuir
Testes de Software (MOLINARI, L. - Erica, 2003)
Análise de Riscos em Teste de Software (RIOS, Emerson. - Alta Books, 2005)
Teste de Software - 2a. edição (Rios, Emerson e Moreira, Trayahu - Alta Books, 2006)
Garantia de Qualidade de Software (Bartiê, Alexandre - Editora Campus - 2002)
Managing the Testing Process (BLACK, Rex. - Microsoft Press,1999)
Lessons Learned in Software Testing (KANER, C; BACH, J and PETTICHORD, B. - John Wiley & Sons Inc., 2002)
Software Testing - A Guide to the Tmap Approach (POL, Martin; TEUNISSEN, Ruud and VEENENDAAL, Erik van. - S.l. Addison Wesley, 2002)
Testing Computer Software (KANER,C; FALK, J and NGUYEN, Hung Quoc. - Second Edition - Van Nostrand Reinhold, 1993)
E por fim o famoso RUP - The Rational Unified Process que, acredito, deva ser o livro de cabeceira de todo principiante. Os estagiários que passaram por mim "adoravam" a tarefa de passar seus 2 ou 3 primeiros dias lendo o RUP.
Sobre Ricardo Cristalli:
Graduado em Medicina Veterinária pela UFRRJ, especializou-se em teste de software sendo consultor QACenter Compuware e certificado TeamTest consultant domain IBM Rational e CBTS® pela ALATS (Associação Latino Americana de Teste de Software). Um dos autores do Livro “Base de Conhecimento em Teste de Software” e atualmente ocupa o cargo de vice-presidente da ALATS, diretor do Instituto de Teste de Software (iTeste) e atua como consultor de processos e Qualidade de Software.